CRAC'H
- Noëlle Francois

- 3 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: 4 de jan.

Hoje, seguiremos até o noroeste da França, na pequenina Crac’h, na Bretanha — um lugar mais conhecido por sua atmosfera do que por grandes atrações. Aqui, rios, mares e paisagens interioranas se encontram de forma silenciosa e natural, como se tudo tivesse aprendido a coexistir sem pressa. Crac’h não se impõe. Ela se deixa descobrir.
E talvez tenha sido exatamente isso que despertou em mim a vontade de viver a essência desse lugar. Em um site de locação de residências temporárias, procurei por uma casa que me fizesse sentir, ainda que por alguns dias, como uma verdadeira bretona. Foi assim que aluguei uma casa de pedra.
Elas parecem brotar da própria paisagem. Herança da arquitetura rural tradicional, atravessam o tempo sem ficarem presas a ele. Restauradas com cuidado e adaptadas à vida contemporânea, seguem acompanhando o ritmo lento da cidade e convivendo com a natureza sem a intenção de dominá-la. Morar em uma delas muda a forma como se aprecia o dia.

Confesso: foi uma das experiências mais bonitas que já vivi. Talvez porque, ali, tudo aconteça no tempo certo — inclusive a forma como a gente se transforma sem perceber. A casa, toda charmosa, fica no centrinho da cidade, de frente para a igreja, como um delicado cenário de conto de fadas. No parapeito da janela da sala, Baloo e Suki observam, curiosos, o tranquilo — e quase raro — vai e vem de pessoas, como quem assiste ao tempo passar sem pressa.
Enquanto os bichanos descansavam tranquilos no conforto da casa, foi meu cachorro Scott quem seguiu comigo para explorar a vida lá fora. Nossa primeira parada foram os Alinhamentos de Carnac. Espalhadas entre campos e caminhos, aquelas grandes pedras erguidas — os menhirs, ou menires em português — impõem-se exuberantes, sem pedir explicação nem contexto. Nascidas no período Neolítico, por volta de 5.000 a.C., atravessam os séculos com respeito silencioso, como uma das presenças mais marcantes desta região do Morbihan, onde o passado nunca parece distante.
Caminhar entre elas é quase uma meditação em movimento. Os passos desaceleram, os pensamentos se acalmam e o silêncio deixa de ser vazio para virar companhia. Ali, o respeito se aprende sem ser explicado.
Nessa região, o simples ir e vir pelas estradas bucólicas e diminutas já é um entretenimento por si só. As paradas para fotos acontecem quase sem aviso — é impossível não se render aos cenários que se revelam a cada curva, como pequenas descobertas sucessivas. Não poderíamos deixar de fora Quiberon e sua baía majestosa. Ali, uma pausa para o almoço se transforma em contemplação: o aroma que escapa dos restaurantes se mistura ao cheiro da brisa salgada, enquanto o vento frio colore meu rosto de um tom rosado. No sossego desse instante suspenso, tudo convida a apreciar o que há de mais típico — um caneco de cidra e o olhar perdido no horizonte. E quando o tempo finalmente se mostrou oportuno, Scott correu livremente pelas areias da praia, como se aquela imensidão também fosse, por alguns instantes, só dele.
Caminhei pelas ruas de Auray, sem pressa, até que uma tempestade nos surpreendeu no caminho. Foi ali que nos refugiamos em um pub, com chocolate quente entre as mãos, observando pela janela o suave balançar dos barcos no porto de Saint-Goustan. Do lado de fora, a chuva marcava o ritmo; do lado de dentro, tudo desacelerava. Meu fiel escudeiro, com a saúde fragilizada e o coração batendo em seus últimos compassos, aproveitou aquele abrigo para uma soneca reparadora.
É entre os comércios locais que eu realmente me encontro. Um dedinho de prosa com os comerciantes nutre a gente pelo resto da vida. Preparar o jantar em casa virou um ritual — Baloo e Suki circulando entre utensílios e panelas, trazendo leveza e diversão ao fim do dia. Nas sacolas, pães ainda quentinhos da padaria familiar, frutas e legumes vindos do agricultor local, escolhas simples que carregam histórias. Um vinho da região acompanha tudo, sem cerimônia, mas com intenção.
Não se trata de negar a necessiadade das grandes redes de supermercados, mas de reconhecer o privilégio que é sair desse fluxo e viver a comida feita em pequenas quantidades, cheia de sabor original e livre de agrotóxicos. Tudo ganha mais presença. Aprecio esses gestos com certa solenidade. São esses, para mim, os pequenos prazeres da vida — aqueles que não fazem barulho, mas permanecem.
Na manhã seguinte, ao acordar e abrir a janela, deparei-me com uma feira de rua bem ali, na nossa porta. Como se tudo tivesse sido cuidadosamente orquestrado para agradar nossa breve estadia, uma barraca de peixes se instalava exatamente diante dos olhos atentos dos meus felinos. Eles sentiam os aromas com intensidade, quase enlouquecidos, olhos atentos e água na boca a cada movimento. Para a alegria deles, no almoço, uma pescadinha branca — simples, fresca e absolutamente irresistível.
Foi em um desses dias que Crac’h me marcou de uma forma que jamais esquecerei. Do lado de fora, o frio cortante e a chuva intensa tornavam tudo ainda mais aconchegante. Recolhi-me no quarto, livro em mãos e pijama de flanela. Comigo, Suki e Scott, dividindo o calor debaixo das cobertas. Em algum momento, ouvi meu marido perguntar lá de baixo:— Baloo está aí com vocês?
Bastaram frações de segundo para que o peso daquela pergunta se instalasse. Por um descuido, a porta de entrada não havia sido devidamente travada. Ela se abriu. E Baloo — sem coleira nem medalha de identificação — havia fugido.
O sangue pareceu sumir das minhas veias. O chão me faltou. Um pânico absoluto tomou conta de mim, diferente de tudo o que eu já havia sentido. Revirei a casa em desespero, cômodo por cômodo, enquanto meu marido vasculhava o jardim e o quintal mergulhados na escuridão. Minhas lágrimas escorriam sem controle, e meu corpo inteiro tremia.
Não sei dizer quanto tempo durou — apenas sei que pareceu longo demais. Munidos apenas da luz dos celulares, seguimos procurando sem trégua. Até que, de repente, o avistamos no terreno do vizinho: pequeno, imóvel, com o olhar assustado de quem havia se perdido. Meu marido pulou o muro sem pensar em leis, regras ou consequências. Apenas o pegou no colo.
Naquele instante, o mundo voltou à sua rotação normal. Baloo estava seguro. Aprendi ali que alguns sustos servem apenas para nos lembrar o tamanho do amor incondicional que sentimos por esses seres tão vulneráveis.
Mas Crac’h ainda guardava outro marco importante da nossa história. Scott nos avisava, em silêncio, que seus dias conosco se aproximavam do fim. Ao mesmo tempo, iniciou-se uma batalha judicial exaustiva, que se estendeu por quase seis meses, contra a companhia aérea que se recusava a trazê-lo de volta ao Brasil conosco. Advogados na França e no Brasil, incontáveis tentativas, meses de incertezas e medo. Movemos montanhas. Mas havia uma certeza que não se negociava: ninguém embarcaria sem ele. Ou viajávamos todos juntos, ou não viajaria ninguém.
Numa noite simples, enquanto tomávamos uma sopa preparada por uma rotisserie do bairro — os bichanos deitados sobre a mesa e Scott acomodado em seu puff, ao nosso lado — o telefone tocou. Do outro lado da linha, a voz do nosso advogado vinha diferente, contagiante. A juiza havia concedido a tão esperada liminar. Scott poderia voltar conosco, em segurança, na cabine do avião.
Naquele instante, compreendi que amor é resiliência. E que alguns lugares não entram na nossa história por acaso — entram porque testemunham, ao nosso lado, aquilo que jamais esqueceremos.
As paradas pelos cafés da região acabam se tornando quase obrigatórias. Em Rochefort-en-Terre, estabelecimentos de construção medieval surpreendem com vitrines repletas de gulodices. Em um deles, encontro uma generosa seleção de bolachas caseiras veganas. A dona, orgulhosa, explica com cuidado os ingredientes e a particularidade de cada receita. Levo várias para casa. E, para guardar a lembrança desses instantes preciosos, acaba vindo na bagagem também um par de xícaras feitas por um artesão local.

Nesse cantinho do mundo, os animais se manifestam de forma discreta. Estão ali, mas seguem seu próprio ritmo, sua distância, sua autonomia. E isso também é convivência. Nem tudo precisa ser documentado. Garças e aves migratórias acompanham o movimento das marés, enquanto a vida vibrante debaixo da água sustenta o equilíbrio do ecossistema. Nos campos ao redor, vacas e cavalos caminham sem pressa, e a fauna mais reservada se revela apenas em vestígios — um voo repentino, um movimento rápido entre a vegetação. Não são encontros que pedem registro, mas presenças que convidam à observação e ao respeito.
Longe da lógica do consumo desenfreado, essa simplicidade cotidiana parece proteger o essencial. Talvez seja justamente nesse modo de viver — tão distante do excesso que marca o mundo capitalista — que o equilíbrio se sustente. Menos urgência, menos acúmulo, menos interferência. Nesse espaço preservado, os animais seguem existindo com dignidade, assim como os lugares que habitam.
Consultoria e Revisão: Arthur Barbosa.



















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