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RIO DE JANEIRO

  • Foto do escritor: Noëlle Francois
    Noëlle Francois
  • 2 de mar.
  • 11 min de leitura
Cotidiano no Complexo do Alemão - Bruno Itan

Quem me conhece sabe: sou louca por bichos e defensora ferrenha deles. Se quiser me conhecer na minha essência, você não vai encontrar quem eu sou verdadeiramente em rodas de amigos ou eventos sociais, mas sim quando estou perto de um animal. Porque é ali, na presença deles, que é possível enxergar quem realmente sou; me ver de corpo e alma. E hoje abro o blog num momentinho de nostalgia. Volto no tempo para abraçar, em palavras, o meu querido Scott. Enquanto penso nele, meu coração inevitavelmente também lembra de Orelha, símbolo de uma dor que nunca deveria ter existido.

 

Sr. Claudio
Sr. Claudio

Histórias como a dele nos atravessam e nos convocam a sermos melhores. Scott, por outro lado, encontrou no meio da crueldade humana um gesto que mudou tudo. Abandonado, acorrentado em um barranco no interior de São Paulo, com o pescoço dilacerado pelo cabo de aço que o prendia, ele foi visto – e salvo – pelo senhor Benedito Cláudio Ernesto, uma pessoa de bondade extrema para com os animais, que nunca virou as costas para os que precisavam de ajuda. Com dificuldade e coragem, seu Cláudio, como era conhecido, o libertou. E ali, naquela estrada de terra, dois destinos passaram a caminhar lado a lado.

 

Agora você deve estar se perguntando: o que tudo isso tem a ver com o Rio de Janeiro, certo? Ele viveu comigo apenas quatro anos, mas foram intensos, cheios de vida. Se um dia conheceu o abandono, também soube o que é ser amado. Viajou, descobriu novos caminhos e viveu sua velhice com dignidade e plenitude. Quando ele partiu, algo dentro de mim dizia que seria egoísmo guardar sua história só para mim. O mundo precisava conhecê-lo. Quando a ideia de escrever um livro sobre ele surgiu, junto veio aquela voz interna, severa e julgadora: “Quem você pensa que é? Não tem formação para isso. Ponha-se no seu lugar.” Confesso que me senti pequena diante da minha própria insegurança. Mas decidi, mesmo assim, encarar de frente. Coloquei no papel tudo o que o coração sabia, mesmo sem entender de técnicas de escrita ou ser perita em língua portuguesa.

 

Hoje, Diário de Bordo do Cão Scott percorre o mundo. Se aquele primeiro passo não tivesse sido dado, hoje não existiria Miauventuras. Eu não estaria nas comunidades do Rio de Janeiro, sendo presenteada pela alegria contagiante das crianças que me ensinam, a cada encontro, o verdadeiro sentido de compartilhar histórias.

 

Gosto do Rio. E me entristece perceber como, tantas vezes, os noticiários escolhem mostrar apenas a sua violência. Em determinado momento, me peguei pensando na vida das crianças que crescem nas comunidades e convivem diariamente com essa realidade. Foi então que uma ideia começou a ganhar força dentro de mim. Baloo e Suki já estiveram na Cidade Maravilhosa comigo, na vida real. Por que não os levar, agora, até essas crianças através do olhar curioso e inocente de dois gatinhos viajantes? Talvez muitas delas nunca tenham visitado esses pontos turísticos que, na minha imaginação, meus bichanos exploraram. Mas o belo e o lúdico devem atravessar fronteiras. Devem chegar aonde os muros invisíveis ainda insistem em existir. Porque coisas bonitas não deveriam ser privilégio de burgueses. Nem de qualquer outro rótulo que limite o acesso ao encantamento. Cada criança, onde quer que viva, tem o direito de sonhar e se ver dentro de uma história bonita.

 

Tudo na vida tem seus altos e baixos. E, para mim, o resultado deste projeto não está apenas nos livros impressos, mas nas pessoas que ele me permitiu conhecer. Descobri líderes que fazem a diferença todos os dias na vida de quem mora nas comunidades. Pessoas que não esperam soluções grandiosas, mas constroem mudanças possíveis. Sozinhos, não somos capazes de resolver as mazelas do mundo. Mas podemos transformar o que está ao nosso alcance, mesmo que sejam gestos microscópicos. O que não podemos é permanecer na inércia, vivendo apenas de lamentações.

 

Foi nessa jornada que conheci o fotógrafo Bruno Itan, quando o convidei para fazer as fotos na minha ida às comunidades. Pernambucano, nascido no Recife, vive no Rio há mais de 25 anos e passou muitos deles no Complexo do Alemão. Sempre o incomodou ver as favelas retratadas apenas como sinônimo de violência nos sites de busca. Ele sabia que havia muito mais ali. E decidiu mudar o foco. Por meio de suas lentes, passou a revelar o cotidiano humano, a dignidade silenciosa, os afetos e a força de quem vive nesses territórios.

 

Começar do zero não foi simples, mas hoje seu trabalho tem reconhecimento internacional. Seu livro Olhar Complexo foi finalista do Prêmio Jabuti, um dos mais importantes da literatura brasileira. Quando o príncipe Harry visitou o Brasil, a embaixada britânica fez questão de incluir em sua agenda um encontro para conhecer suas fotografias. Um reconhecimento que fala por si. Mas talvez o que mais me emocione seja outra escolha dele. Bruno criou um curso de fotografia para crianças da comunidade, com o mesmo nome de seu livro. Como ele mesmo me disse: “Quero ver nas mãos delas uma câmera fotográfica, e não uma arma”. Essa é a contribuição dele para um mundo melhor. Nossas conversas me tocaram profundamente. Ele descreve com honestidade o que é viver sob a tensão dos tiroteios, do o medo que atravessa adultos, crianças e até os animais, que procuram um canto para se abrigar quando o barulho ensurdecedor começa.

 

E no meio de tudo isso, ele escolheu enxergar luz. Talvez seja isso que mais me mova: encontrar pessoas que, em vez de se renderem ao cenário, escolhem transformá-lo. E cada encontro como esse reforça em mim a certeza de que histórias, quando contadas com verdade, também são uma forma de resistência.


Bruno
Bruno

 

Assim foi com Mestre Naldo. Ao ouvir sobre Miauventuras, abraçou a causa com entusiasmo. Nascido e criado no Santo Amaro, conheceu a capoeira aos oito anos, por meio de um projeto social. Talvez por isso, já adulto em um cenário onde apenas o futebol ganhava destaque, sentiu o desejo de retribuir. Sem patrocínio, guiado apenas pela coragem, criou o Projeto Capoeira Santo Amaro, com um propósito claro: oferecer às crianças um caminho de disciplina, pertencimento e autoestima, longe de influências que poderiam desviá-las de seus sonhos. Hoje, 25 anos depois, sua roda continua girando.

 

Angélica
Angélica

Enquanto as crianças gastavam energia nos gingados, eu conversava com Angélica, sua noiva. Ela tem aquele dom raro de fazer a gente se sentir em casa. No seu jeito de ouvir e falar há sempre um “seja bem-vinda” silencioso, um acolhimento que dispensa formalidades. Com ela, a conversa fluiu como se fôssemos amigas de longa data.

 

Mestre Naldo
Mestre Naldo

Sou obrigada a admitir: Naldo conduz sua turma com maestria. Seu vozeirão, firme e ao mesmo tempo afetuoso, ecoa pela quadra, preenchendo o espaço com autoridade e cuidado. E, enquanto eu o observava, um pensamento insistia em me visitar: como eu, com meu jeito naturalmente acanhado, conduziria minha fala diante das crianças? Via nele tanta segurança, tanta fluidez, que me perguntava se conseguiria estar à altura daquele momento, se encontraria as palavras certas sem decepcioná-lo. Mas, naquele instante, entreguei o que tinha de mais verdadeiro: minha intenção. Foi uma honra ser recebida por ele e por seus alunos de forma tão calorosa. Ver de perto o trabalho que realiza como resgate cultural e valorização do coletivo. A energia da roda, os olhares atentos, o respeito mútuo… tudo ali fala de cuidado e direção. Ele é mais um daqueles que não aceitam ficar de braços cruzados diante das dificuldades. Em vez de se render ao cenário, escolheu construir alternativas. A capoeira, em suas mãos, é mais do que movimento, é estrutura, é comunidade, é horizonte. Que a roda nunca pare e continue girando, abrindo caminhos onde antes havia apenas incerteza, e formando não apenas capoeiristas, mas futuros mais amplos.


 

Victor
Victor

Foi ainda nessa caminhada que conheci Victor Lobisomem: músico, compositor, cantor, capoeirista e cordelista, ele carrega a cultura brasileira no corpo e na palavra. Ainda jovem, entrou para a academia de capoeira de Mestre Camisa, e foi ali que ganhou o apelido “Lobisomem”, nome que hoje o acompanha nos palcos, nos versos e nas rodas. Membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel e integrante da ABADÁ-CAPOEIRA, ele dedica sua trajetória à valorização das riquezas culturais cearenses e brasileiras. Em seus trabalhos ecoam o cordel, o samba, a capoeira, o teatro e o cangaço – sempre com identidade e compromisso. Mas, para além dos títulos e reconhecimentos, o que mais me tocou foi sua generosidade. Ele não apenas abriu seus versos para mim, abriu caminhos. Foi ele quem me ajudou a levar Miauventuras a outras comunidades, compartilhando o projeto com amigos, fortalecendo pontes, ampliando encontros. Mas houve um instante que guardo com carinho especial.

 

Quando Victor me entregou seus cordéis e dois de seus livros, senti algo difícil de traduzir em palavras. Não era apenas o presente material — era o gesto. Era o encontro entre histórias que se reconhecem. Segurar aqueles versos nas mãos foi como tocar uma tradição viva. Cada página carregava não apenas rima e métrica, mas memória e identidade. Ali, naquele momento simples e profundo, compreendi mais uma vez que a cultura popular não é algo distante ou folclórico. Ela pulsa. Conecta. Acolhe. Receber seus livros foi mais do que um presente, foi um abraço em forma de palavra.

 

Grécia é outra pessoa para quem eu tiro o chapéu. Mesmo com a agenda tomada por compromissos, foi generosa ao me ceder um pouco do seu tempo e me conduzir pelo trabalho do Anjos na Favela. A visita começou intensa, no Centro Rinaldo de Lamare. Entre os andares do prédio, seu celular não lhe dava trégua; ela me apresentava às responsáveis pelos diversos setores, respondia chamadas, resolvia questões tudo com uma naturalidade admirável. Fui recebida com entusiasmo. Falei sobre o livro, sobre o Projeto Pequeno Escritor, e em um dos andares a conversa ganhou um brilho especial: as mulheres que me acolheram também eram gateiras. Bastou mencionar bichanos para que os sorrisos se ampliassem, e a empolgação na conversa foi para uma outra dimensão, com cada uma falando de seus gatos. Depois, atravessamos a avenida rumo à Rocinha.

 

Foi ali, na sede do Anjos na Favela, que compreendi com mais profundidade o que significa cuidado em ação. Apoio e informação caminham juntos, de forma simples, acessível e profundamente humana. Cada atendimento é mais do que um serviço prestado: é escuta atenta, acolhimento verdadeiro e um passo a mais rumo à autonomia. Entre rodas de conversa, orientações em saúde e direitos, terapias e apoio às famílias, especialmente àquelas com pessoas neurodivergentes ou com deficiência, existe algo maior que assistência: constrói-se presença.

 

Mães Valentes da Favela - Rocinha Inclusiva
Grécia

Grécia e sua equipe fazem o cuidado acontecer todos os dias, bem perto de quem precisa. Não com discursos grandiosos, mas com constância, compromisso e humanidade. Ao me despedir, levei comigo mais do que relatos. Levei a certeza de que, quando o cuidado é contínuo, ele transforma pessoas.

 

Agora, uma passagem interessante nessa trajetória foi quando comecei a oferecer os livros nas comunidades: Itamar, do Santa Marta, foi direto, acolhedor e aceitou de imediato. Mas, logo em seguida, veio uma pergunta que me pegou de surpresa. Com Miauventuras ainda em fase de ilustração, ele quis saber o que eu poderia oferecer às crianças durante o período de férias. Algo que elas pudessem viver antes mesmo de o livro ficar pronto. Confesso: não tinha pensado nisso. Conversei com ele novamente, e foi desse diálogo que nasceu uma ideia simples e bonita. Criamos um encarte para colorir, apresentando quem são Baloo e Suki e trazendo como pano de fundo o nosso tema central: o Rio de Janeiro. No dia da atividade, enquanto os desenhos ganhavam cor, os voluntários fizeram uma pergunta às crianças: “Se vocês pudessem levar Baloo e Suki para conhecer qualquer lugar, para onde seria?”.

 

Livro Miauventuras

O que aconteceu depois foi um verdadeiro festival de imaginação. Surgiram lugares incríveis. Cantinhos do bairro, sonhos de cidade, espaços de afeto e pertencimento. Cada sugestão carregava não apenas criatividade, mas identidade. Ali, entendi algo importante: Miauventuras não era apenas uma história sendo entregue; uma história começando a ser construída junto com elas.

 

E teve o Josué. Nem sei em que momento ele começou a registrar tudo. Quando percebi, já estava ali com celular na mão, entrevistando, rindo, puxando conversa, chamando um aqui, outro ali… envolvendo todo mundo. Em poucos minutos, o encontro já tinha virado um minidocumentário improvisado. Tem gente que chega e observa. Josué chega e movimenta. É entusiasmo que se espalha, riso solto, presença que ilumina o ambiente. Uma pessoa, mas parece uma multidão.

 

Josué
Josué

Confesso que, em meio a tantas emoções, foi especial ver alguém mergulhar naquele momento com tanta entrega. Não era apenas gravar. Era participar enquanto registrava. Os vídeos que ele fez guardam exatamente o que aquele dia foi: intensidade, alegria e verdade. Vou preservar cada um com carinho, porque ali ficou registrado algo que ultrapassa qualquer imagem.

 

Em meio às conversas, livros e encontros, Cassiano, liderança no Santo Amaro, esteve ali fortalecendo a noite antes mesmo dela começar, pois seu incentivo na divulgação foi parte essencial para que o encontro ganhasse corpo e voz. Em meio ao movimento da noite, nossas conversas foram breves, mas sua presença foi, para mim, motivo de honra e reconhecimento. Há presenças que não ocupam o centro do palco, mas sustentam a cena inteira.


Cassiano
Cassiano

 

Escrevendo agora, percebo que lá no começo, além da equipe que sempre esteve comigo nas ilustrações, na gráfica e no design – já com a mão na massa – eu não tinha absolutamente nenhum contato dentro das comunidades. E, para ser sincera, tampouco sabia por onde começar.

 

Apesar de ter colocado a carroça na frente dos bois, uma forma pouco convencional de iniciar um projeto, não me deixei intimidar. Acredito que, muitas vezes, é preciso ir com a cara e a coragem, naquele espírito de “depois a gente pensa”. Do contrário, tanta coisa boa acaba engavetada. Na minha primeira tentativa de estabelecer contatos nas comunidades para organizar a entrega dos livros, não obtive resposta. Aos poucos, entendi que existe ali uma rede de confiança já estabelecida, algo que, à primeira vista, pode parecer difícil de acessar para quem chega de fora.

 

Mas nunca fui do tipo que aceita um “não” como resposta. Se a intenção era levar histórias e abrir caminhos por meio dos livros, eu precisava também aprender a construir pontes. Decidi, então, buscar outro rumo e recorri ao mais simples e poderoso dos recursos: o “boca a boca” entre amigos. Luciano, responsável pelo meu site, é do Rio. Nada mais natural que fosse minha primeira ligação. Lembro que ele disse que retornaria, e retornou. Foi então que me passou o contato de uma amiga, Márcia.

 

Quando consegui falar com ela e explicar o que eu sonhava realizar, não demorou muito para que meu celular começasse a tocar sem descanso, trazendo uma sequência generosa de contatos preciosos, um verdadeiro fluxo de portas se abrindo. A ela, e a todos que confiaram e estenderam a mão, serei sempre profundamente grata. São parte essencial para que Miauventuras tenha alcançado a dimensão que tem hoje, chegando às principais comunidades e encontrando, em cada entrega, sorrisos luminosos nas crianças que o receberam com entusiasmo. Esses momentos dizem mais do que palavras. 

 

Outras visitas ao Rio já estão no meu calendário. Vou reencontrar, e descobrir, mais olhares curiosos e mãos prontas para folhear histórias. Porque incentivar a leitura é mais do que entregar livros; é espalhar possibilidades. E, se cada visita deixar ao menos uma chama acesa, então todo o percurso já terá valido a pena.

 

Scott
Scott

Nessa jornada, aprendi mais do que poderia imaginar. Aprendi sobre coragem, escuta e presença. Ganhei algo ainda mais precioso: amizades que nasceram no caminho e que levo comigo para a vida inteira. Em cada uma delas encontrei uma linguagem diferente, mas o mesmo compromisso: não se omitir diante do que podemos transformar. Neste seguimento da Arca de Noëlle: Animais pelo Mundo, Scott, Baloo e Suki são muito mais do que personagens: foram o ponto de partida de tudo o que hoje floresce, o impulso silencioso por trás de cada passo, os verdadeiros responsáveis por tudo o que aconteceu. Não apenas viajaram comigo, eles abriram portas para cada encontro.



 

 

Consultoria e Revisão: Arthur Barbosa 

 

Fotos:

@brunoitan

Claudia Gurian

Acervo Pessoal

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