ÁRTICO
- Noëlle Francois

- há 4 dias
- 9 min de leitura

O réveillon tem esse jeito sutil de criar a ilusão de que, à meia-noite, tudo pode recomeçar. Entre luzes no céu e brindes, são feitas promessas baixinho — como se o universo realmente estivesse ouvindo, e, nem que seja por alguns segundos, acreditamos que o novo ano virá diferente. E, naquele momento, sem que eu ainda soubesse… 2026 já tinha decidido que seria um ano extraordinário.
Mas, antes mesmo de qualquer resolução ganhar forma, já existia um destino traçado no meu calendário: Ártico. Um lugar onde o frio não apenas se sente — ele impõe presença.
Janeiro não seria sobre metas. Seria sobre atravessar paisagens extremas, encarar um silêncio quase palpável e perseguir um dos fenômenos mais hipnotizantes da natureza: a aurora boreal.
Ainda no voo entre Frankfurt e Alta, a transformação começava pela janela. Lá embaixo, a paisagem se redesenhava em branco: montanhas cobertas de neve, lagos imóveis, caminhos quase apagados pelo inverno. E, pela primeira vez enquanto contemplava aquela natureza sem pressa, o mundo, para mim, parecia se aquietar.

Nessa época, o sol simplesmente não se dá ao trabalho de nascer por completo. É o período conhecido como noite polar — mas o nome engana. Porque a escuridão nunca é total. Há um intervalo raro, quase suspenso, em que o céu se mantém em um crepúsculo prolongado. Ainda do meu assento no avião, onde tudo parece intocável, o azul profundo que tomava conta lentamente muda para tons alaranjados, verdes e violetas no horizonte. Não é dia. Não é noite. É algo que só o Ártico sabe ser.
Embarcar em uma expedição como essa não tem absolutamente nada a ver com colocar um casaco bonitinho, duas meias e sair confiante, achando que está pronta. Porque não está. Menos trinta graus não é exceção — é rotina. O frio simplesmente se impõe.
Antes mesmo de pisar lá, já tinha recebido uma lista quase cirúrgica do que levar: segunda pele, gola térmica, jaqueta corta-vento e pequenos “milagres” em forma de pads aquecedores, que você enfia nas mãos e nos pés como se sua vida dependesse disso. Confesso que, na maioria das vezes, foi vital.
Com o básico garantido na mala, veio a próxima etapa: encarar o figurino oficial dessa odisseia. No hotel, junto com a equipe, provei macacões gigantes, luvas robustas e galochas que facilmente competiriam em tamanho com a minha dignidade.
E aqui vai um aviso importante: não é hora de querer se sentir linda e maravilhosa. Esqueça qualquer tentativa de estilo, como calça e jaqueta que ornam. Não rola essa coisa de look nesse ambiente glacial. Existe sobrevivência, não vaidade.
O macacão é enorme, a bota maior ainda, e, em poucos minutos, você deixa de ser uma pessoa minimamente elegante para se transformar em algo muito próximo do boneco da Michelin, e glamour zero.

Curiosamente, foi ali que aprendi uma das coisas mais contraintuitivas da viagem: quanto mais justa a roupa, pior. O calor precisa de espaço para circular. É o ar entre as camadas que te mantém aquecida, não o aperto.
Outro detalhe é a importância de proteger o pescoço e a jugular. Essa região funciona como uma espécie de atalho térmico para o corpo. Quando exposta ao vento e a baixas temperaturas, ocorre uma perda rápida de calor, o que afeta todo o organismo.
Na foto, você pode observar meu modelito garboso — e eu sei exatamente o que você está se perguntando: isso é confortável? É prático? A resposta é NÃO. Nem um pouco. É volumoso e desengonçado, e te faz andar como se tivesse esquecido como funciona o próprio corpo. Mas, naquele cenário, era ele ou hipotermia. E eu fiz minha escolha: optei pela prudência.
Agora imagine a hora em que batia a vontade de um xixizinho básico ao longo do dia. Era outro nível de desafio, porque significava desmontar toda aquela engenharia térmica. Um verdadeiro teste de paciência, vencido pelo desânimo imediato.
Que nenhum médico me escute, mas foi oficialmente o período em que diminuí drasticamente a ingestão de água — tudo para evitar esse confronto desnecessário com o modelito.
Vestir toda essa parafernália não era exagero — mas o mínimo para conseguir encarar o frio. Para te dar uma ideia do que estou falando em termos de temperaturas hostis, bastava tirar a mão da luva por alguns segundos, e o corpo dava o seu aviso — e ele não era sutil.
O frio vinha rápido, quase agressivo. Em questão de instantes, os dedos pareciam congelar, perdendo a sensibilidade, como se deixassem de me pertencer. E aí começava a missão desesperada de me reaquecer — esfregando, apertando, tentando devolver vida aos poucos, mesmo com os pads dentro da luva fazendo o que podiam.
E aí estava o meu dilema. Eu, completamente apaixonada por fotografia, diante de paisagens que imploravam para ser registradas… e um corpo que claramente não estava disposto a colaborar.
Confesso: por alguns momentos, bateu um quase desespero. Não por causa do frio em si — mas pelo sentimento de estar cercada por cenas incríveis e não conseguir capturá-las no momento que queria.
Mas, no fim, tudo era recompensador — cada esforço encontrava sentido ali, não como um momento raro, mas como constância, noite após noite.
A aurora boreal tomava o céu com movimentos imprevisíveis, quase vivos, desenhando tons de verde e rosa sobre o branco absoluto da neve. Lá embaixo, as luzes amareladas das casas e ruas criavam um contraste quase íntimo com aquele espetáculo imenso. Um momento para ser sentido, surreal de explicar e bonito demais para ignorar. Eu permanecia ali, paralisada, tentando não perder nenhum segundo.
Enquanto isso, a fogueira crepitava, desafiando o frio nas altas horas da noite, uma taça de vinho nas mãos… e, acima de nós, algo tão grandioso que dispensava qualquer tentativa de tradução.
Calma! Se você está aí quebrando a cabeça para imaginar tudo isso, relaxa — no final do texto tem um vídeo que te leva direto para esse momento comigo.
Se, à noite, dormir já era um desafio — porque desviar o olhar da aurora exigia um esforço quase desumano —, durante o dia a intensidade não diminuía. As aventuras continuavam. E, às vezes, em níveis que eu não tinha exatamente planejado.
Uma das programações incluía um passeio de moto de neve até um ponto remoto, seguido de um buraco aberto no gelo para pesca. Bastante “convidativo”, especialmente para uma vegana como eu. Mas, segundo diziam, pegar um peixe ali era quase improvável. Admito que isso me trouxe um certo alívio.
O que eu não esperava era o que viria a seguir. Naquela empreitada, pela primeira vez, senti um pânico absoluto.

Logo na primeira meia hora, a velocidade, somada ao vento cortante, transformava os já conhecidos menos trinta graus em uma sensação ainda mais difícil de suportar. O frio não apenas estava ali — ele atravessava a alma. E, por algum motivo, meu corpo simplesmente não reagia como deveria e insistia em não me manter aquecida. O vapor da minha respiração congelava aos poucos o tecido que deveria proteger meu rosto. Tremia involuntariamente; parecia que cada parte de mim se transformava em gelo.
Eu já tinha enfrentado climas intensos durante uma ultramaratona transalpina, sob neve e condições extremas, mas ali era diferente. Enquanto avançávamos, algo começou a mudar. Um desespero crescente, difícil de controlar. Os pensamentos vinham rápidos e desordenados: “como vou aguentar um dia inteiro assim?”
Eu, que sempre me considerei destemida, me vi em um lugar completamente diferente. Mais vulnerável do que gostaria de admitir. E, claro, fiel ao meu estilo… fiquei em silêncio. Não ia ser eu a causar alarde no grupo. Mas, por dentro, a tensão aumentava, e eu sentia que estava desmoronando. Era como se tudo estivesse escapando do meu controle. Até que, em um momento quase inesperado, houve uma mudança.
Três — ou talvez quatro — motos de neve colidiram. O passeio, imediatamente, foi interrompido. Por segurança, a decisão foi clara: voltar. E foi nesse instante que algo curioso aconteceu. Meu corpo começou, aos poucos, a reagir e a se aquecer. Era o conforto do entendimento de que o pior já tinha passado.
Enquanto organizávamos o retorno e avaliávamos os danos, não podíamos simplesmente ficar parados. Era preciso continuar em movimento — andando em círculos, sem pausa — para manter o calor.
Mas, dentro de mim, havia mudado. Com a certeza de que voltaríamos, finalmente consegui olhar ao redor. Quilômetros e mais quilômetros de um branco absoluto. Uma ou outra árvore perdida no horizonte. Um cenário que impunha silêncio — não pelo vazio, mas pela sua grandeza.

Tudo respirava em um ritmo próprio. E ali, quase sem perceber, um tom rosado começava a surgir no horizonte. A natureza, em sua forma mais pura, parecia fazer apenas um pedido: desacelere. Apenas se faça presente. Contemple!
O desfecho deve estar meio óbvio para você, né? Cheguei ao hotel, tomei um banho quente daqueles, comi bem e me enfiei debaixo das cobertas, aproveitando cada segundo daquele conforto mais do que merecido. Nesse dia, confesso, minha tolerância ao frio tinha chegado ao limite. Dei só uma espiadinha na aurora e voltei correndo para o quentinho da cama.
A mente humana tem dessas: mal dá tempo de reclamar muito, e ela já trata de apagar os perrengues — como se nada tivesse acontecido, pronta para a próxima. E não demorou muito para eu estar ali outra vez. Acordei no dia seguinte revigorada e parti para mais uma empreitada: caminhar pela mata coberta de neve.
A ideia era simples — viver aquilo por completo, sem deixar nada escapar. Chicco tem três malamutes do Alasca, e foram eles que nos acompanharam naquela manhã — imponentes, encantadores e de uma beleza desconcertante. Dava vontade de parar tudo e simplesmente ficar ali, brincando com eles.
Nas botas, prendi as raquetes de neve — aquelas engenhocas que evitam que a gente afunde a cada passo e, de quebra, ainda dão uma certa estabilidade à caminhada.
Ila, Yuka e Atka corriam com a familiaridade de quem conhece cada metro daquele caminho. Mergulhavam o focinho na neve e desenterravam gravetos, como se ali fosse um grande playground branco.

Diante daquela paisagem, fiz o que qualquer ser humano faria: me joguei no chão para fazer um snow angel. Nesse instante, diria que o frio do dia anterior tivesse sido pura imaginação.
E, claro, não resisti — sacudi uma árvore para provocar aquela “chuva” de neve caindo sobre mim. Definitivamente, o dia anterior já não tinha mais tanto peso assim.
E, continuando no quesito experiências obrigatórias, sim, fui visitar um hotel de gelo. Construído a cada inverno com blocos retirados do Rio Alta, ele abriga quartos, bar e até uma capela. Um espetáculo efêmero: quando a primavera chega, ele derrete simplesmente deixando de existir.
Mas esta milady que vos fala sabe exatamente onde beira seus limites. Admiro, contemplo, fotografo… mas dormir ali já é outro nível de comprometimento. Prefiro, sem qualquer culpa, o conforto dos hotéis convencionais — onde o pijama de flanela basta e a liberdade de movimentos é um luxo garantido. Porque, convenhamos, dormir em condições gélidas não é para amadores.
Ainda assim, não deixei escapar o essencial — brindei à experiência com um drinque servido, naturalmente, em um copo de gelo.

E, como se não bastasse tudo o que eu já tinha vivido até ali, o roteiro ainda caprichou no final — com um dos encontros mais marcantes da viagem. Fui recebida por Aslak Sokki, um criador de renas do povo Sami, cuja presença exalava a calma firme de quem vive no tempo das estações, não no dos relógios.
Vestido com trajes tradicionais que fundem proteção e identidade, ele carregava no corpo mais do que o abrigo contra o frio: carregava ancestralidade.
Ali, não se tratava apenas de sobreviver, mas de pertencer. Os Sami ocupam essas terras há gerações, em um equilíbrio ditado pelo respeito, não pela pressa. É um saber que não encontramos em livros; herda-se.
Impossível falar deles sem citar as renas. Mais do que sustento, elas são família. Crescem juntas, atravessam ciclos e conectam o passado ao presente em uma relação de cuidado e entendimento profundo da natureza. Existe uma delicadeza que contrasta com a dureza do ambiente — uma forma de viver que não tenta dominar, mas coexistir. Perceber que, mesmo no limite do planeta, ainda há quem caminhe com o meio ambiente, e não contra ele, é o que mais impressiona.

Mas nem tudo ali é tão imutável quanto parece. A resiliência da região agora enfrenta um novo limite. Em lugares como Svalbard, a chuva passou a invadir o inverno, caindo sobre a neve e transformando-se em uma armadura de gelo impenetrável assim que a temperatura despenca. Logo abaixo dessa crosta está o alimento das renas — líquens e plantas que elas sempre alcançaram cavando. Sabem que a comida está ali. Sentem o cheiro. Insistem. Mas o gelo não cede. De repente, aquilo que sempre esteve ao alcance deixa de estar, e muitas não sobrevivem ao inverno.
Ainda assim, olhar para elas apenas com pena seria reduzir demais o papel que desempenham. São as renas que ajudam a manter a tundra aberta e clara, refletindo a luz em vez de absorver calor. Sem esse equilíbrio, o solo escurece, aquece mais rápido e tudo ao redor começa a ruir. Para os Sami, elas são a própria definição de continuidade.
Estar ali fez com que essa realidade deixasse de ser distante. Percebi que não se trata apenas de animais adaptados ao frio, mas de um equilíbrio delicado — daqueles que só notamos quando começamos a perder. O mais inquietante é que a luta dessas criaturas não acontece no isolamento; ela ecoa muito além do gelo. Afinal, o que transforma a neve em barreira não começa no Ártico; começa na forma como vivemos, consumimos e ignoramos o nosso impacto.
No fim, a maior ilusão é acreditar que o que fazemos aqui não impacta lá.
VEJA OS VÍDEOS!
Aurora Boreal
Estrada com destino a tribo Sami
Hotel de gelo – Sorrisniva
Deserto de neve

















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