COMPLEXO DO ALEMÃO
- Noëlle Francois

- 19 de mar.
- 11 min de leitura
Atualizado: 20 de mar.

28 de outubro de 2025. O Rio de Janeiro acordou sob o peso da ação policial mais letal de sua história: a Operação Contenção.
Na manhã seguinte, numa cidade acostumada ao barulho das sirenes, o silêncio das cenas falou mais alto. Fotografias brutais da Praça São Lucas correram o mundo. Imagens impossíveis de ignorar — e ainda mais difíceis de esquecer.
Enquanto todos reagiam em choque, em meio à violência que dominava as manchetes, eu ainda não sabia, mas algo também nascia dentro de mim.
Nas rodas de conversa, as vozes se exaltavam. O assunto incendiava qualquer mesa. Uns defendiam a operação com fervor. Outros a condenavam com indignação, o consenso parecia não reinar. Era um daqueles assuntos que o velho ditado recomenda evitar: política e religião. Preferia me abster de dar minha opinião. A meu ver, violência gera mais violência, e geralmente quem paga o preço são os mais vulneráveis.
Enquanto os adultos discutiam avidamente sobre aquela barbaridade, eu me perguntava como tudo aquilo estava sendo vivido pelas crianças.
Imaginava quantas delas precisaram mudar o caminho até a escola apenas para não se deparar com as imagens difíceis de explicar. O impacto devia estar sendo profundo para elas.
Como uma esperança em meio ao caos, começava a surgir uma nova perspectiva de ver o Rio — com a inocência que a infância precisa. Ali nasciam as primeiras sementes de Miauventuras – Rio de Janeiro.
Foi então que uma pergunta começou a me acompanhar: o que eu poderia fazer por aquelas crianças? Mesmo que fosse algo pequeno — quase invisível — queria oferecer a elas uma outra forma de olhar para a cidade de maneira a escapar, ainda que por alguns instantes, do cotidiano violento que os traficantes impõem às ruas.
Na noite de primeiro de novembro, durante o jantar, algo inesperado aconteceu. As primeiras imagens do livro começaram a surgir. A mesa continuava cheia, mas minha mente já estava em outro lugar.
Flashes vinham de forma incessante, um atrás do outro. Ao meu redor, tudo parecia distante — do barulho dos talheres aos aromas que vinham da cozinha. Nem lembro exatamente o que comi.
Se alguém me perguntava algo, eu apenas assentia, sem realmente ouvir. Não queria perder o fio da meada daqueles pensamentos que surgiam.
Assim que me levantei, fui direto ao computador para começar a transformar aquelas ideias em algo concreto. Queria ao menos vislumbrar o que poderia ser aquele novo projeto. Pouco a pouco, os dois primeiros desenhos de referência começaram a tomar forma.
Primeiros esbosos de referência
Ainda assim, minha ansiedade não se conformava. Eu queria dar o primeiro passo. Esperar o horário comercial de segunda-feira significava mais de 24 horas — um tempo que, naquele momento, parecia se estender quase ao infinito. Quando o relógio marcou nove da manhã, comecei a acionar gráfica, ilustrador, diagramador e Arthur, meu revisor.
Naquele instante, Miauventuras finalmente começava a existir.
Antes de seguir com a história, deixo uma dica: se você ainda não leu o post anterior, RIO DE JANEIRO, vale a pena dar um pulinho lá. Foi onde contei os perrengues para fazer os livros chegarem até as comunidades. Prometo não repetir tudo aqui… porque, convenhamos, meu leitor não merece uma autora gagazinha contando a mesma história outra vez!
Continuando! Finalmente minhas idas ao Rio começaram a ser agendadas. De todas as comunidades programadas para receber os livros, um nome insistia em não aparecer no cronograma: Complexo do Alemão. Eu não aceitaria deixar de fora o berço onde tudo começou. Para mim, não era coerente.
Insistente que sou, lá fui eu atazanar meus contatos. Telefonei. Mandei mensagens. Reforcei pedidos. Insisti mais uma vez. E nada. Um silêncio que começava a me inquietar. Até poderia jurar que era um complô contra mim.
Mas, no fundo, penso que talvez o Complexo estivesse apenas me pedindo paciência. Como quem diz: “Calma, mulher. Sossega o facho! Quando você vier, precisa ser do jeito certo. Com tudo isso que você conquistou, quero te receber de forma grandiosa — tapete vermelho e todas as honras da casa.” E não foi diferente.
De forma quase poética, foi como se os astros tivessem se alinhado e, quando eu menos esperava, meu celular tocou com a ligação que tanto aguardava. Eu seria recebida nada mais, nada menos que na semana em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher.
Naqueles dias, iria ver de perto algo que estatística nenhuma consegue medir: a potência das mulheres que sustentam o mundo todos os dias. Porque, até podem tentar nos diminuir, silenciar, apagar — e muitas vezes de forma brutal, como vemos nos noticiários que insistem em lembrar da violência que tantas enfrentam. Mas há algo que não conseguem destruir: a força que carregamos. Dobramos diante da vida, mas raramente nos quebramos.
Tive menos de uma semana para organizar minha viagem. Passagens, envio dos livros, reserva de hotel, ida para São Paulo com Baloo e Suki a tiracolo e toda a logística para garantir que nada faltasse a eles na minha ausência. A lista parecia não ter fim. E, claro, havia também meu motorista particular. Foi assim que começou a minha Turma das Super Poderosas.

Henrique, que costuma me atender, não estaria disponível nas datas. Mas resolveu o problema com uma frase simples: “Vou te mandar a Cristina.”
Bastou ela encostar o carro no aeroporto para eu entender que estava diante de uma mulher intensa. Ela é daquelas que chegam mostrando para o que vieram. Segura, direta, com um olhar que parece já ter visto de tudo um pouco nessa vida. Em poucos minutos eu já sabia: não poderia ter alguém melhor ao meu lado.
Me levou por lugares que, como ela mesma dizia: “Aqui é tenso.” E era mesmo.
Passamos por ruas onde nos jornais costumam aparecer: vias fechadas, histórias de tiroteios, homens armados observando quem entra e sai. Mas Cristina parecia absolutamente à vontade naquele cenário. Havia algo nela — na forma como conduzia o carro, na tranquilidade com que falava, no jeito firme de ocupar o espaço — que transmitia em mim uma segurança inabalável.
Mesmo quando passamos por homens carregando fuzis ou revólveres, nada em sua postura vacilava. E, curiosamente, aquilo também não me perturbou. Talvez porque, nos lugares que eu havia decidido visitar, cenas como aquelas já faziam parte do meu pacote de viagem.
Passamos horas dentro daquele carro. Entre uma comunidade e outra, nasceram conversas longas, risadas inesperadas e histórias que só o Rio sabe produzir. Ela foi motorista, confidente, carregadora de caixa de livros comigo e, em muitos momentos, até assistente improvisada na hora dos autógrafos. E enquanto eu corria de um compromisso para outro, era com ela, que na pressa, matava a fome com um açaí.
No fim daqueles dias eu já sabia que Henrique tinha razão. Ela não era apenas a motorista que me levava de um lugar a outro. É daquelas presenças marcantes que chegam ocupando espaço, organizando o caos ao redor e conduzindo tudo sem precisar pedir licença. Exemplo de mulher firme, intensa, absolutamente dona do próprio caminho e trabalhando num ambiente dominado por homens.
Entre tantas vidas que atravessam essa comunidade, algumas não apenas resistem — elas renascem mais fortes. Foi justamente uma dessas trajetórias que me acolheu ali. Minha anfitriã foi Mariluce Mariá Souza. E para mim foi uma honra — daquelas que a vida nos oferece poucas vezes.

Algumas pessoas carregam dentro de si uma presença difícil de explicar. Não é algo que se percebe apenas pelo que fazem, mas pelo caminho que precisaram atravessar para chegar até ali. Conhecer a trajetória de Mariluce é se deparar com a força de uma mulher que decidiu reescrever o próprio destino.
Sua vida começou marcada por uma ausência brutal. Ainda na maternidade, foi abandonada por ter nascido com problema cardíaco. Cresceu convivendo com lacunas que muitas vezes moldam percursos difíceis. Ao longo dos anos enfrentou perdas, violências físicas e momentos em que o mundo parecia empurrá-la para a escuridão.
Em um dos períodos mais delicados de sua jornada, chegou a se perder no universo das drogas. E houve um momento em que a própria vida pareceu apagar quem ela era — quando perdeu a memória, como se tudo tivesse sido temporariamente suspenso. Então ela escolheu se reescrever.
Aprendeu novamente a existir, reconstruiu sua identidade e transformou a própria dor em algo que ultrapassava sua experiência pessoal. Foi assim que nasceu o Favela Art, um projeto que utiliza a arte como ferramenta de transformação social, oferecendo oficinas e oportunidades a milhares de crianças do próprio Complexo do Alemão.
Mas falar apenas do projeto seria reduzir o tamanho da mulher que existe por trás dele. Porque o que realmente impressiona em Mariluce não é apenas o que ela construiu, é o fato de que, depois de atravessar tantas quedas, ela decidiu não desistir de caminhar e estender a mão aos que precisam. Escolheu transformar suas cicatrizes em pontes.
Dentro do que estamos construindo com o Miauventuras ali no Alemão, ela se torna mais do que inspiração. Passa a ser parte viva desse meu movimento silencioso e poderoso de mulheres que acreditam na educação, na arte e no afeto como instrumento de transformação.
Porque quando uma mulher encontra novamente a própria voz, algo extraordinário acontece. Ela não transforma apenas a própria vida, mas abre caminho para muitas outras mudando destinos inteiros.
Ao chegar na escola, Mariluce já me esperava. A chuva não dava trégua, caía barulhenta. Lá fora, descarregar os livros se tornou um desafio. Eu segurava as caixas contra o peito enquanto desviava das poças que já se formavam no chão. Mas a forma calorosa como fui recebida fez o temporal parecer pequeno. Eu ainda fazia um esforço quase inútil para me manter minimamente apresentável para as fotos. No fim das contas, parecia alguém que tinha acabado de atravessar um furacão. Minhas fotos e vídeos ficaram deploráveis, parecia uma louca descabelada.
A diretora adjunta Ana Júlia veio ao meu encontro toda animada, me abraçando e apontando onde eu poderia colocar as caixas. Ela é daquelas pessoas que, por onde passa, espalha alegria e ilumina o ambiente. Eufórica, não continha a curiosidade para ver o livro. Logo me instalei no Cantinho da Leitura e fui me espalhando pela mesa. Todos que estavam comigo começaram um mutirão para abrir caixas e encartar os folhetos do projeto Pequeno Escritor. E eu, freneticamente, autografava alguns livros.

Hora de ir para as salas de aula. Percorrer aqueles andares e corredores foi como uma viagem no túnel do tempo, de quando eu ainda tinha meus seis anos de idade. Nas paredes, os murais de recados estavam repletos de desenhos dos alunos. Verdadeiras obras de arte feitas à moda antiga: papel, lápis de cor ou canetinha e colagem. Era reviver a época sem internet, dedinhos cheios de cola e glitter, a tesoura de bico arredondado que mal cortava o papel. Saudades!
Ao chegar às classes, Ana Júlia, com sua forma doce e envolvente de falar, me apresentava a todos como a escritora que tinha vindo exclusivamente visitá-los e trazer de presente o Miauventuras. Dizia que eu não era brasileira e os fazia começar a adivinhar minha nacionalidade. Foi um festival de nomes de países. Por fim, descobriram que sou francesa.
Ela encerrava sua fala dizendo para não se preocuparem, pois tudo estava escrito em português. A sala parecia hipnotizada por ela — e, naquele instante, não havia espaço para distrações, apenas para o encanto de ser conduzido por sua voz.
Na minha vez, aproveitei a deixa e comecei falando em francês com eles. A reação daqueles olhinhos arregalados pela surpresa de eu não falar português, as carinhas repletas de curiosidade, todos se entreolhando como quem queria dizer “O que ela está falando?”, foi para mim o momento que mostrou que todo o esforço tinha valido a pena — eu não conseguia evitar o sorriso. Passado o efeito surpresa, expliquei o que havia dito. A felicidade estampada em cada rostinho me foge às palavras para descrever.
Comecei explicando quem são Baloo e Suki, e falei sobre a importância de respeitar os animais e jamais maltratá-los. Dei uma pincelada sobre o que temos nas páginas e, claro, mostrei que numa delas os bichanos estão na sala de aula, comentando sobre a importância da escola e dos professores. Todos me escutavam em silêncio e uma certa reverência.
Nos olhares havia algo profundo que me fazia baixar a guarda. Talvez fosse aquela alegria de quem percebe que, de repente, alguém de um outro universo atravessou o mundo inteiro apenas para estar ali com eles — aquele sentimento de pertencimento. Enquanto eu falava, eles seguravam os livros como se fossem tesouros recém-descobertos.
Não demorou muito para a enxurrada de perguntas começar. Entre todos os rostinhos curiosos, um em especial insistia em me acompanhar. Havia nele algo que me desarmava. Um menino magrinho, bem-falante e articulado, daqueles que parecem não caber dentro da própria curiosidade. Ele ria fácil, comentava com o colega ao lado, folheava o livro ávido por novas descobertas. Havia nele uma alegria tão genuína que era impossível ignorar. Em vários momentos nossos olhares se cruzaram, como se entre nós existisse uma pequena cumplicidade velada.
Franklin, um dos responsáveis por me abrir as portas das escolas, estava conosco e teve uma ideia fantástica:” Por que não lemos uma página em francês?”

A turminha foi ao delírio. Ele lia em português e eu, na sequência, em francês.
A sede de conhecimento das crianças falou mais alto e todos queriam saber como eram seus nomes em francês. Esse momento foi um verdadeiro festival de divertimento para todos nós.
Mas foi justamente nesse instante de afeto e acolhimento que vivi a experiência mais dolorosa — e para a qual eu não estava preparada. Com várias salas para visitar e sem poder interferir muito nos horários, tudo era feito de maneira orquestrada e cada segundo era valioso. Foi aí que meu mundo desmoronou por completo.
Eu já estava me virando para sair da sala quando ouvi atrás de mim uma voz conhecida correndo na minha direção: “Tia! Tia! Autografa meu livro!” Era ele. O menino magrinho que durante toda a conversa parecia vibrar a cada palavra.
Instintivamente levei a mão ao bolso traseiro da calça para pegar a caneta. Mas, em uma fração de segundo, senti a mão de alguém me puxando pelo braço e me conduzindo para a porta de saída, “Daqui a pouco ela volta.” disse ela para as crianças. Eu sabia que não era verdade.
Quando olhei para trás, vi aqueles olhinhos cheios de expectativa se transformarem em frustração. Naquele instante tive a dolorosa sensação de ter quebrado algo muito delicado. Nós, adultos, muitas vezes não entendemos a urgência dos sonhos das crianças.
E sei que sempre vou lembrar daquele menino correndo em minha direção, com o livro nas mãos. E a cada vez que reviver esse momento, meu coração será novamente dilacerado.
Mas foi também nesse mesmo dia, que levarei comigo uma lembrança de ternura em sua forma mais pura. Uma após outra, as crianças se aproximavam e, com a simplicidade que só a infância possui, perguntavam se poderiam me dar um abraço ou um beijo.
No meio do burburinho de tudo sendo registrado, algumas — mais tímidas — pediam, quase em segredo, se poderiam tirar uma foto comigo. Seguravam o livro contra o peito enquanto esperavam sua vez. Pequenos gestos que, ainda hoje, aquecem minha memória.

Foram Baloo e Suki que despertaram dentro de mim algo que por muito tempo esteve adormecido. O sentimento de que eu não poderia permanecer inerte diante das situações que nos chocam.
Dentro da minha pequenez encontrei a forma que estava ao meu alcance de fazer alguma diferença. Não era nada grandioso, nem revolucionário. Era simplesmente o que eu podia fazer. Assim nasceram minhas Miauventuras. Elas me levaram até o Rio de Janeiro, onde conheci pessoas incríveis, vivi momentos marcantes e, acima de tudo, redescobri uma voz dentro de mim que por muito tempo permaneceu calada.
Sem editora, nem grandes estruturas por trás e com uma distribuição nada convencional, o livro encontrou seu próprio caminho — e chegou exatamente aonde precisava.
Essa comunidade deixou de ser apenas o lugar onde um livro nasceu. Tornou-se parte da minha própria jornada. Ali entendi que pequenos gestos podem atravessar barreiras invisíveis e tocar vidas de maneiras inesperadas.
Algumas histórias, quando começam a ser vividas de verdade, não permitem despedidas longas — por isso, em breve estarei de volta. Há conexões que simplesmente continuam.
Complexo do Alemão — muito obrigada.
Não termine este texto sem assistir ao TED Talk de Mariluce. ACESSE O LINK CLICANDO AQUI

Instagram: @favelaart











Nós aqui do Complexo do Alemão agradecemos imensamente o amor e dedicação que tem pelas nossas crianças.
Li chorando, pois você contou tudo como aconteceu com detalhes que dá pra ver a cena novamente. E quem não viu consegue viver o sentimento que você transmite!
Os livros que enviou essa semana chegarem . É na entrega vamos fazer a leitura, e também a oficina criativa.
Se prepara que seus pequenos leitores e escritores estão preparando muitas coisas para te enviarem!
Gratidão ❤️