EUROPA EM CHAMAS
- Noëlle Francois

- 30 de jul.
- 5 min de leitura

Há dias, a Europa parece ter trocado o azul do verão por um céu tingido de laranja.
As imagens se repetem incessantemente nos noticiários: labaredas gigantescas avançando sobre florestas, estradas engolidas pela fumaça, famílias deixando suas casas às pressas, carregando aquilo que conseguiram salvar em poucos minutos. Ginásios, centros de exposições e espaços disponibilizados pelas prefeituras transformam-se em abrigos improvisados para receber quem perdeu tudo — ou quem ainda não sabe se terá uma casa para onde voltar.
Assistimos, consternados, ao desespero dessas pessoas. Vemos os bombeiros exaustos, os aviões atravessando uma cortina quase impenetrável de fumaça e toda uma força-tarefa tentando conter incêndios que parecem ter adquirido vontade própria.

Mas, enquanto nossos olhos acompanham as chamas chegando às cidades, existe uma outra tragédia acontecendo dentro das florestas.
Uma tragédia quase nunca mostrada. Ali também havia casas.
Não construídas com paredes, telhados ou janelas, mas cuidadosamente preparadas entre galhos, raízes, pedras, troncos e pequenos buracos cavados na terra. Eram ninhos, tocas e esconderijos onde animais dormiam, protegiam seus filhotes, procuravam alimento e simplesmente viviam suas vidas.
Até que o fogo chegou.

Quando pensamos em um incêndio florestal, talvez imaginemos que os animais, guiados por seus instintos, conseguem pressentir o perigo e fugir. Alguns realmente conseguem. Correm, voam, rastejam ou procuram abrigo onde podem. Mas a natureza não concedeu a todos a mesma velocidade — e tampouco lhes ofereceu um mapa indicando para qual direção escapar.
Os mais jovens ainda não aprenderam a fugir. Os filhotes permanecem nos ninhos esperando por seus pais. Animais idosos ou feridos não conseguem acompanhar os demais. Ouriços-cacheiros, tartarugas, pequenos roedores, anfíbios, répteis e tantos outros habitantes do sub-bosque simplesmente não possuem velocidade suficiente para vencer uma parede de fogo empurrada pelo vento.
Alguns se escondem em tocas, acreditando estar protegidos, sem compreender que o calor e a fumaça também atravessam a terra. Outros correm para o lado errado.
E muitos, mesmo sem serem alcançados pelas chamas, acabam intoxicados pela fumaça tóxica que invade seus pulmões, desorienta seus sentidos e encobre as referências que sempre utilizaram para encontrar abrigo.
De repente, a floresta que conheciam deixa de existir.
É difícil imaginar o que sente um animal cercado pelo fogo. Ele não sabe o que está acontecendo, não entende de ondas de calor, mudanças climáticas ou planos de evacuação. Apenas percebe que o ar se tornou irrespirável, que o chão está quente, que o céu desapareceu sob a fumaça e que todos os caminhos parecem levar ao mesmo lugar.

Ele corre porque tem medo. Corre porque quer viver. Mas nem sempre consegue.
Do alto, os Canadair surgem como enormes pássaros amarelos e vermelhos atravessando o céu coberto de cinzas. Em poucos segundos, deslizam sobre lagos, represas ou sobre o mar, recolhem milhares de litros de água e voltam a ganhar altura. Logo depois, sobrevoam as áreas em chamas e despejam aquela preciosa carga sobre o fogo.
A operação se repete incansavelmente.
Enquanto uma aeronave retorna para se abastecer, outra se aproxima da linha de fogo. Helicópteros transportam água, equipes trabalham em terra e bombeiros avançam por lugares onde o calor parece tornar impossível dar mais um passo. O trabalho desses profissionais é absolutamente extraordinário.
Eles enfrentam o fogo quando todos os outros precisam fugir. Arriscam a própria vida para proteger pessoas que jamais conheceram, casas onde nunca entraram e florestas que talvez nunca tenham visitado antes daquele dia.
Mas há algo particularmente doloroso nas imagens de bombeiros olhando para as chamas com uma expressão de absoluta desolação. Não é falta de coragem ou de esforço. É a impotência de quem está oferecendo tudo o que possui e, ainda assim, percebe que o fogo avança mais depressa do que qualquer ser humano consegue combatê-lo.

Eles vencem uma frente e outra surge. Controlam uma área e o vento muda de direção. Trabalham durante horas, até que o corpo já não acompanhe a determinação de continuar.
E, no meio desse combate desigual, muitos também se deparam com animais feridos, desorientados ou imóveis entre as cinzas. Talvez seja nesse momento que compreendam que salvar uma floresta nunca significou apenas combater o incendio.
Porque, quando o fogo finalmente passa, a tragédia não termina.
Os sobreviventes emergem diante de uma paisagem irreconhecível. Já não encontram os caminhos que percorriam, os lugares onde se escondiam ou as árvores que lhes ofereciam frutos e abrigo. As fontes de alimento desapareceram. Os ninhos foram destruídos. O solo, antes coberto de vida, tornou-se uma extensa camada de cinzas.
Até mesmo a água que poderia significar salvação pode carregar sedimentos, cinzas e substâncias liberadas pela queima. Com as primeiras chuvas, parte desse material escorre para riachos, rios e lagos, afetando peixes, anfíbios e todos os animais que dependem daqueles ambientes.
Os que escaparam do fogo ainda precisarão enfrentar a fome, a sede, os ferimentos, a perda de território e a ausência de abrigo. Muitos acabam se aproximando de estradas e áreas urbanas, onde encontram perigos completamente diferentes: atropelamentos, cercas, cães, desorientação e o medo de pessoas que não compreendem por que eles estão ali.
Eles foram expulsos de suas casas por incêndios que, em sua imensa maioria, começam pelas mãos do próprio ser humano — seja de forma criminosa, seja por uma bituca de cigarro lançada pela janela, uma fogueira mal apagada ou qualquer outro gesto de negligência que, em poucos minutos, transforma uma floresta inteira em cinzas. Somos nós que provocamos o fogo, destruímos o único lugar onde esses animais poderiam viver e, depois, quando aparecem assustados em nossas estradas, quintais e cidades, ainda os tratamos como invasores. Eles não vieram ocupar o nosso espaço. Estão apenas tentando sobreviver ao que nós mesmos causamos.
As florestas europeias abrigam grande parte das espécies terrestres nativas do continente. São ecossistemas formados por relações delicadas, muitas vezes invisíveis aos nossos olhos. Uma árvore não é apenas uma árvore. Ela oferece alimento, sombra, abrigo e um lugar para reprodução. Um pequeno inseto pode polinizar plantas, alimentar aves e participar da decomposição da matéria orgânica. Um curso d’água sustenta vidas muito além daquilo que conseguimos enxergar em sua superfície.
Quando o fogo destrói tudo isso de uma só vez, não desaparecem apenas animais e plantas. Rompem-se conexões construídas pela natureza durante séculos.

É verdade que algumas florestas podem se regenerar depois de um incêndio. O fogo, em determinadas condições, faz parte dos ciclos naturais. Mas o que estamos vendo já não se parece com um ciclo equilibrado. São incêndios atravessando ecossistemas fragilizados por secas prolongadas, temperaturas extremas e pela fragmentação dos habitats. Hoje, eles batem sucessivos recordes de devastação e, a cada ano, parecem ainda mais intensos, extensos e difíceis de controlar. Cada ano que passa a Europa parece arder um pouco mais.
Quando o fogo retorna antes que a floresta tenha tempo de se recuperar, a natureza recomeça um pouco mais pobre.
Ainda assim, as notícias continuam concentradas quase exclusivamente nas perdas humanas e materiais. Casas destruídas podem ser reconstruídas. Famílias precisam — e devem — receber todo o acolhimento possível. Cada vida humana salva importa profundamente.
Mas reconhecer essa dor não deveria nos impedir de enxergar todas as outras vidas.
Os animais não aparecem diante das câmeras para contar aquilo que perderam. Não sabem pedir ajuda, não ocupam os abrigos municipais e tampouco conseguem explicar que aquela floresta era o único mundo que conheciam.
Talvez por isso seja tão fácil esquecê-los. Eles morrem longe das lentes, escondidos sob a fumaça e, muitas vezes, sem sequer entrar nas estatísticas.
São as vítimas silenciosas de uma catástrofe que não começaram e da qual não têm como escapar.
Quando uma floresta arde, não são apenas hectares que desaparecem. São ninhos, tocas, rotas, alimentos, filhotes e histórias que jamais conheceremos.
Por isso, da próxima vez que as imagens desses incêndios surgirem na televisão, talvez possamos olhar um pouco além das chamas. Em algum lugar atrás daquela imensa cortina de fumaça, existe um animal correndo.
Ele não sabe para onde ir. Não sabe quanto falta.
Apenas corre com todas as forças, tentando salvar a única coisa que ainda lhe resta: a própria vida.
E talvez o mínimo que possamos fazer seja não permitir que sua história também desapareça em silêncio.



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