AMAZÔNIA

Atualizado: 20 de out.

Quando comprei minha passagem para Manaus, em meados de março, eu já sabia que teria de esperar alguns meses por essa viagem. Como sempre, gosto de planejar tudo com bastante antecedência. Mas confesso que, dessa vez, a ansiedade falou mais alto. Parecia até que o calendário havia resolvido andar mais devagar!
Apaixonada pelos animais como sou, só de imaginar que estaria tão perto de tantas espécies vivendo livremente em seu habitat natural, no coração da Floresta Amazônica, eu já ficava eufórica. Afinal, não é todo dia que temos a oportunidade de conhecer de perto um dos maiores santuários de biodiversidade do planeta. E lá fui eu, acompanhada da minha pequena viajante, Suki, rumo a mais uma aventura!
Nossa chegada a Manaus foi marcada por uma surpresa: o calor! Eu sabia que a cidade era quente e úmida, mas confesso que não estava preparada para aquela sensação de ar tão abafado. Foi só sair do aeroporto para entender que, por lá, os termômetros não brincam em serviço!

Minha primeira preocupação, naturalmente, foi com a Suki. Naquele momento, tudo o que eu queria era chegar logo ao apartamento que havia alugado, para que ela pudesse descansar e ficar confortável, longe daquela temperatura tão intensa.
Viajar com uma gatinha exige alguns cuidados especiais. Além das mudanças de temperatura, existe também o impacto de sair do ambiente familiar onde mora, e chegar a um lugar completamente desconhecido, com novos cheiros, sons e espaços.
Por isso, faço sempre questão de respeitar seu tempo de adaptação, oferecendo tranquilidade, segurança e todo o conforto possível. E nem preciso dizer que a Suki viaja praticamente com metade da casa na mala! Arranhadores, varetinhas para brincar, tunelzinho de esconde-esconde e mais uma porção de cacarecos que faço questão de levar para que ela se sinta em casa, mesmo estando longe dela. Afinal, ela é minha companheira de aventuras, e seu bem-estar vem sempre em primeiro lugar.
Com tudo devidamente organizado e a Suki confortável, era hora de começar a descobrir a Amazônia! Na manhã seguinte, acordei com aquela euforia de criança que sabe que vai viver um dia especial. Afinal, eu estava prestes a conhecer os famosos botos-cor-de-rosa, navegar pelos rios Negro e Solimões e visitar uma comunidade indígena. Tudo aquilo que eu havia imaginado durante meses finalmente estava acontecendo!
A aventura começou às margens do imenso Rio Negro, onde embarquei em uma lancha, também conhecida na região como voadeira, para explorar aquelas águas que parecem não ter fim. Navegar por ele foi uma experiência deliciosa. De um lado, a vegetação exuberante; do outro, uma imensidão de água que se perdia no horizonte. E ali estava eu, naquela pequeno barco, tentando absorver cada detalhe daquele cenário. Diante de tanta grandiosidade, a embarcação parecia ainda menor!
Durante o percurso, avistei também a imponente Ponte Jornalista Phelippe Daou, mais conhecida como Ponte Rio Negro, que liga Manaus ao município de Iranduba. Uma construção impressionante em meio àquela paisagem.

Mas confesso que meu coração estava especialmente ansioso pelo que viria a seguir: os botos-cor-de-rosa!
Cheguei a uma plataforma flutuante, onde fui recebida com muita simpatia pela equipe local. Um dos responsáveis pelo espaço utilizava peixes para atrair os botos, que logo começaram a se aproximar. Que animais extraordinários!
Eles são criaturas fascinantes, de movimentos delicados, comportamento curioso e uma agilidade surpreendente dentro da água. Observá-los tão de perto, surgindo e desaparecendo na superfície, foi daqueles momentos que ficam guardados na memória.
Depois de tantos meses esperando por aquele encontro, estar ali, tão perto deles, foi ainda mais especial do que eu havia imaginado. E, ao mesmo tempo, aquela proximidade me fez pensar na importância de respeitá-los como seres selvagens, que precisam continuar livres, saudáveis e protegidos em seu ambiente natural. Afinal, a maior beleza daquele encontro estava justamente em vê-los onde realmente pertencem: nas águas da Amazônia.
Momentinho Discovery Channel! Olha que curiosidade descobri por lá! Apesar do nome, os botos-cor-de-rosa nascem cinzentos e vão adquirindo tons rosados à medida que crescem. E nem todos ficam igualmente cor-de-rosa! Alguns continuam mais acinzentados, enquanto outros, especialmente os machos, exibem uma coloração bem mais intensa. Pelo visto, cada boto tem seu próprio estilo!

Segui então para outro espetáculo da natureza: o famoso Encontro das Águas, onde o Rio Negro se encontra com o Rio Solimões. Que fenômeno impressionante!
De um lado, as águas escuras do Rio Negro. Do outro, as águas barrentas do Solimões, carregadas de sedimentos que vêm dos Andes. O mais curioso é que os dois rios seguem lado a lado por cerca de seis quilômetros, mantendo uma divisão visível entre suas cores antes de se misturarem gradualmente e formarem o curso que, no Brasil, passa a ser chamado de Rio Amazonas.
Aprendi que isso acontece porque suas águas possuem características muito diferentes. O Rio Negro é mais quente, ácido e tem uma correnteza mais lenta. Já o Solimões é mais frio, corre mais rapidamente e transporta uma enorme quantidade de sedimentos. Essas diferenças de temperatura, densidade e velocidade fazem com que a mistura não aconteça imediatamente. É a natureza nos oferecendo uma verdadeira aula, sem precisar de uma única palavra!
Depois de tantas emoções, chegou a hora de almoçar em um restaurante flutuante, algo bastante característico da região. São estruturas construídas sobre as águas, que acompanham suavemente o movimento dos rios.
E aqui vai uma descoberta deliciosa: mesmo sendo vegana, encontrei ótimas opções para experimentar um pouquinho da culinária regional. Meu prato teve feijão, farofa e alguns temperos e condimentos típicos da Amazônia, que deram um sabor especial à refeição, bastante diferente daquele com o qual estou acostumada.
Também experimentei, pela primeira vez, um refrescante suco de taperebá, uma fruta amazônica de sabor levemente ácido e muito característico. E, para completar, uma sobremesa que lembrava um pudim de coco, aromatizada com cumaru, uma semente regional conhecida por seu perfume adocicado, semelhante ao da baunilha. Mais uma vez, a Amazônia conseguiu me surpreender, dessa vez pelo paladar!
Mas o dia ainda reservava uma experiência de significado muito particular, segui então para conhecer a comunidade indígena Tuyuka. Fui recebida com apresentações de danças tradicionais, iniciadas pelo pajé da comunidade. Cada uma vinha acompanhada de explicação, revelando aspectos da vida cotidiana, dos costumes e da relação daquele povo com a natureza.

Tive a oportunidade de participar de uma das danças, receber uma pintura no rosto e descobrir um pouco mais sobre os conhecimentos transmitidos de geração em geração. Foi uma experiência de riqueza inestimável, que despertou minha admiração e me convidou a uma profunda reflexão.
Os povos indígenas não são apenas parte da história da Amazônia. Eles fazem parte do seu presente e são fundamentais para o seu futuro. Suas línguas, crenças, tradições e formas de viver precisam ser respeitadas. E, acima de tudo, seus territórios precisam ser protegidos. Preservar a floresta também significa garantir que esses povos possam manter seus modos de vida e seus saberes ancestrais, transmitindo esse legado às próximas gerações.
Saí de lá com uma admiração ainda maior pelos povos originários e com a certeza de que temos muito a aprender com a maneira como compreendem e se relacionam com a natureza. Encerrei aquele dia com a sensação maravilhosa de ter vivido experiências que vão muito além de uma simples viagem.
Reservei também um tempo para explorar a cidade de Manaus, caminhar pelo seu tradicional mercado, descobrir aspectos da vida local e apreciar o trabalho dos artesãos da região.
Confesso que não resisti! Eu até poderia ter voltado com um pouquinho mais de espaço na mala, mas, diante de tantas peças bonitas, feitas pelas mãos de indígenas e artesãos locais, a tentação foi maior!
Acabei trazendo alguns artesanatos que carregam um pouco da história, da arte e da identidade desse lugar. Hoje, esses pequenos mimos embelezam minha casa e me fazem recordar, com muito carinho, os dias que passei na Amazônia. Afinal, algumas lembranças merecem viajar conosco de volta para casa!
Mas a região ainda tinha uma surpresa preparada para mim, ao entardecer, voltei às águas do Rio Negro para mais uma navegação, dessa vez com a oportunidade de conhecê-lo à noite.
Ver a luz do dia desaparecer lentamente sobre aquele cenário foi um espetáculo à parte. Aos poucos, a paisagem foi mudando, os sons da natureza ganharam outra dimensão e tudo parecia adquirir um ar de mistério.
Foi durante esse passeio noturno que tive o privilégio de observar jacarés em seu habitat natural. Quase enlouqueci ao vê-los tão de pertinho! Por um momento, achei que meu celular fosse entrar em pane, de tantas fotos e vídeos que fiz!
Estar diante desses animais em liberdade, perfeitamente integrados àquele ambiente, foi mais um momento de profunda gratidão por poder viver essa aventura. A Amazônia é realmente um universo à parte. Um lugar onde a vida se manifesta de tantas maneiras diferentes e onde cada espécie, das menores às maiores, desempenha um papel fundamental no equilíbrio da floresta.

Porém, a mesma escuridão que trazia o mistério da noite e o brilho dos olhos dos jacarés logo revelou o lado mais doloroso da floresta. Durante o percurso, o homem que conduzia a voadeira, nascido e criado naquela região, chamou minha atenção para alguns focos de incêndio que já podiam ser avistados à distância. Ele apontava e dizia: “Tudo incêndio criminoso feito por gente de muita maldade.”
Aqui faço questão de destacar algo. Não estava ouvindo a explicação de alguém que simplesmente conhecia aquele roteiro turístico. Era uma pessoa que cresceu às margens daqueles rios, que conhece a vegetação, os caminhos das águas e as particularidades da floresta. Alguém para quem a Amazônia não é um destino de viagem, mas parte da própria vida.
Foi através do olhar de quem pertence àquela terra que tomei conhecimento daquela triste realidade. Um olhar de quem conhece não apenas as belezas da região, mas também as ameaças que hoje colocam em risco o lugar onde vive.

Depois de tantas experiências admirando aquele patrimônio natural, observando seus animais e aprendendo sobre a relação dos povos indígenas com a floresta, foi doloroso perceber que parte de tudo aquilo estava sendo consumida pelo fogo.
Eu havia esperado tantos meses para conhecer aqueles animais em liberdade, sem imaginar que, durante a mesma viagem, também me depararia com uma realidade tão triste: a ameaça ao lugar onde eles vivem. E aquela preocupação me acompanharia muito além das águas do Rio Negro.
O que estamos acompanhando agora nos noticiários é assustador. Em outubro de 2026, o Amazonas enfrenta uma grave crise de incêndios florestais, com 36 municípios em situação de emergência. Somente entre os dias 1º e 7 de outubro, foram registrados 644 focos de calor no estado, contra 277 no mesmo período do ano anterior, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

A fumaça compromete a qualidade do ar, prejudica a saúde da população e transforma o cotidiano de milhares de pessoas. Uma situação gravíssima, que merece toda a nossa atenção. Mas, diante de tantas imagens de cidades encobertas pela fumaça, existe uma tragédia que quase nunca recebe o mesmo destaque. E os animais? Quem está olhando por eles?
Por trás de cada área consumida pelo fogo, existem vidas. Preguiças que não conseguem fugir rapidamente, filhotes que dependem de suas mães, aves que perdem seus ninhos e milhares de pequenos animais que encontram na vegetação seu único abrigo.
Muitos morrem durante os incêndios. Outros sobrevivem às chamas, mas encontram uma floresta devastada, sem alimento, sem proteção e sem condições de continuar vivendo como antes. O sofrimento não termina quando o fogo se apaga. A recuperação de um ecossistema pode levar décadas, e algumas perdas são irreversíveis.
É doloroso pensar que grande parte desses incêndios tem origem na ação humana. A destruição da Amazônia não pode ser tratada com indiferença. Precisamos cobrar fiscalização, prevenção e políticas efetivas de preservação.
Voltei dessa viagem ainda mais apaixonada por essa imensa riqueza natural, mas também profundamente preocupada com seu futuro. Tive o privilégio de explorar uma pequena parte desse universo grandioso, observar seus animais em liberdade, navegar por rios imensos e aprender com pessoas cujas histórias estão profundamente ligadas àquela terra.
Talvez seja justamente por ter conhecido tanta beleza que hoje me entristeça ainda mais pensar em tudo o que podemos perder.
A Amazônia não é apenas uma paisagem maravilhosa para admirarmos durante uma viagem. É o lar de milhões de seres vivos, o território de povos que merecem respeito e uma parte essencial do equilíbrio do nosso planeta.
Os animais, não provocaram essa destruição, e não podem denunciar o que está acontecendo, pedir socorro ou exigir que suas casas sejam protegidas. Essa responsabilidade é nossa.
Que as imagens das queimadas não despertem apenas preocupação com a fumaça que chega às nossas cidades, mas também consciência sobre todas as vidas que estão sendo destruídas. Porque a fumaça das queimadas pode chegar até nossas casas. Mas os animais que vivem na floresta não têm para onde fugir.



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